<![CDATA[A Fuga]]>https://afuga.pt/https://afuga.pt/favicon.pngA Fugahttps://afuga.pt/Ghost 6.10Tue, 06 Jan 2026 13:12:23 GMT60<![CDATA[Não adoro francesinhas. Mas a história delas é deliciosa.]]>https://afuga.pt/nao-adoro-francesinhas-mas-a-historia-delas-e-deliciosa/683c271f55b6d80001a3dcacSun, 01 Jun 2025 10:26:37 GMT

Confesso já de início: não sou o maior fã de francesinhas. Não me levem a mal — respeito quem se perde por elas, mas eu fico mais curioso com as histórias do que com o molho. O que me entusiasma mesmo é descobrir as origens das coisas: de onde vêm, quem as inventou, que mitos as rodeiam. E a francesinha, goste-se ou não, tem tudo isso. É talvez a sanduíche mais famosa de Portugal e carrega consigo uma história deliciosa, cheia de exageros, reinvenções e até uma certa picardia cultural. Neste artigo, convido-vos a viajar comigo até ao Porto dos anos 50, conhecer o criador (ou os criadores?) deste petisco, perceber como se transformou num ícone nacional e, claro, descobrir algumas curiosidades pelo caminho. Porque às vezes, mais do que comer, o melhor é saber de onde vem aquilo que se põe no prato.

A origem da Francesinha: quem a inventou e porquê

Na montra do antigo restaurante A Regaleira, no Porto, um letreiro orgulhoso proclamava: “Francesinha – A primeira. Há 50 anos só na Regaleira”. Não é para menos: é que, segundo a lenda, nasceu a primeira francesinha, pelas mãos de Daniel David da Silva, por volta de 1952-53. 

Não adoro francesinhas. Mas a história delas é deliciosa.
Restaurante A Regaleira, no Porto

Daniel era um português natural de Terras de Bouro que tinha emigrado para França (e, segundo algumas fontes, também passado pela Bélgica) e que voltou cheio de ideias na bagagem culinária. Inspirado pelo clássico croque-monsieur francês, decidiu reinventá-lo ao gosto portuense: usou pão português, encheu-o de carnes locais (linguiça, salsicha fresca, fiambre, bife ou carne assada) e cobriu tudo com queijo derretido e um molho secreto à base de tomate e cerveja, bem condimentado. Nascia assim uma sanduíche bem mais atrevida e substancial do que a versão parisiense – transformou um simples croque-monsieur em algo com mais alma, a transbordar de vida e substância.

Mas porquê chamar-lhe francesinha? Aqui entra o toque de humor (e talvez um pouco de mitologia) na história. Conta-se que Daniel era um bon vivant e mulherengo, fascinado pelas mulheres francesas, que nos anos 50 pareciam muito mais modernas e “picantes” que as portuguesas. Ao criar o seu molho temperado com piri-piri (malagueta), Daniel ter-se-á lembrado dessas francesas picantes e batizado o petisco de Francesinha em sua honra. “A mulher mais picante que conheço é a francesa!”, terá dito em tom de brincadeira. Em suma, a iguaria ganhou um nome feminino e diminutivo – uma “francesinha” – numa alusão bem-humorada às supostas qualidades das francesas. Afinal, queria ele “tornar as portuguesas (no caso, as sanduíches portuguesas) tão picantes como as mulheres francesas” !

Como toda boa lenda, há também quem questione esses detalhes deliciosos. Algumas fontes sugerem que a história de Daniel David da Silva só se popularizou décadas depois (nos anos 2000) e pode ter sido colorida pelo marketing . Contudo, a versão é tão saborosa que ficou no imaginário popular: Daniel, o inventor, trabalhou no balcão d’A Regaleira (um restaurante da Rua do Bonjardim, no Porto) e servia lá o tal sanduíche sem nome, que começou a atrair clientes curiosos . A meio da década de 1950 o petisco entrou oficialmente no menu com o nome Francesinha e, graças ao passa-palavra, rapidamente se espalhou a outros locais . O molho – guardado em segredo – era a alma do negócio. Diz-se até que na Regaleira a receita original do molho foi passada confidencialmente de pessoa para pessoa e mantida trancada a sete chaves (reza a lenda que até num cofre!), de tão preciosa que era .

Fato ou folclore, a verdade é que a francesinha conquistou os portuenses. Daniel David da Silva acabou por se reformar e regressar à sua terra natal, mas a criação dele ganhou vida própria. O restaurante A Regaleira manteve-se como a “casa-mãe” da francesinha durante décadas, ostentando o título de inventor. E o Porto ganhou um novo ex-libris gastronómico. A seguir, para entender melhor este nascimento peculiar, vale espreitar o contexto urbano e cultural do Porto nos anos 50 – o caldeirão onde esta ideia inovadora fez sentido.

Porto nos anos 50: vida boémia, restaurantes e influências estrangeiras

Para entendermos o surgimento da francesinha, imagine o Porto dos anos 1950. Portugal vivia tempos economicamente modestos, sob um regime conservador, mas as cidades tinham a sua boémia. O Porto, conhecido pela sua alma trabalhadora mas também festeira, tinha uma vida noturna ativa em certos redutos da baixa: tascas, cafés, casas de pasto e algumas cervejarias onde amigos se reuniam para petiscar e beber uns finos (imperiais) ao fim do dia. Havia também snack-bares emergentes – espaços moderninhos para a época, onde se podiam comer pregos, bifanas e outras sandes rápidas. É neste ambiente que uma sanduíche generosa e diferente poderia brilhar, alimentando estudantes, artistas, viajantes e trabalhadores famintos pela madrugada.

Embora estivéssemos longe da globalização atual, influências estrangeiras já se faziam sentir. Os portuenses conheciam as histórias de iguarias de fora: o tal croque-monsieur francês (um misto quente com elegância parisiense), ou até o hambúrguer americano e outros pratos internacionais trazidos por quem viajava ou lia revistas estrangeiras. Muitos portugueses emigraram para França e outros países europeus em busca de trabalho – e alguns voltaram com novas ideias e paladares. Daniel da Silva foi um desses casos: tendo vivido em França, e também na Bélgica, trouxe referências europeias. Além disso, a própria cidade do Porto tinha contacto histórico com estrangeiros - basta lembrar a comunidade britânica do vinho do Porto, embora isso tenha mais impacto no filet mignon e no rosbife do que em sandes. De qualquer modo, havia terreno fértil para adaptações de receitas internacionais ao gosto local.

Outro ingrediente cultural importante: o espírito boémio e convivial do Porto. Os anos 50 podem ter sido socialmente conservadores, mas isso não impedia os tripeiros (naturais do Porto) de apreciarem bons serões com comida e bebida. A francesinha encaixou perfeitamente nesse estilo de vida. Era um lanche ajantarado que caía bem a qualquer hora: robusto o suficiente para servir de jantar depois de uma noitada ou de acompanhamento de umas cervejas, e guloso ao ponto de ser um “prémio” para o estômago em dias especiais. Muitos dizem que a francesinha foi concebida para ser o petisco ideal para forrar o estômago dos convivas noturnos – picante q.b. para acordar os sentidos, e substancial para aguentar a festa. Se isso é verdade ou não, é certo que rapidamente a iguaria ganhou fama entre os frequentadores da noite portuense e não só.

Um detalhe interessante: no Porto dos anos 50 e 60, era comum diferenciar os pedidos de sanduíches com ou sem ovo. Assim como o croque-monsieur tem a versão com ovo chamada croque-madame, a francesinha também adotou essa variação. A francesinha com ovo a cavalo em cima tornou-se popular - há quem diga que simboliza o chapéu da Madame francesa -, embora a receita original não o incluísse. Esse detalhe mostra como desde cedo a criação portuense dialogou com referências estrangeiras e ao mesmo tempo ganhou personalidade própria.

Resumindo: o Porto dos anos 50 forneceu o cenário perfeito – uma cidade de contrastes, com burgueses e estudantes a circular na Baixa, vontade de inovar na gastronomia apesar do clima político austero, e uma cultura de convívio em torno da mesa. A invenção da francesinha é fruto desse caldeirão cultural: um casamento improvável entre a cozinha francesa e a portugalidade, abençoado pelo apetite boémio portuense. E uma vez introduzida ao público, a francesinha rapidamente deixou de pertencer apenas à Regaleira para se tornar património afetivo da cidade, replicada em cafés, cervejarias e snack-bares por toda a Invicta.

Da versão original às modernas: a evolução da Francesinha

A francesinha nasceu simples (bom, “simples” talvez não seja a palavra para um prato tão recheado, mas entendamos: nasceu pura, na sua forma original) e hoje conta com inúmeras variações e interpretações criativas. Vamos viajar no tempo e ver como este petisco evoluiu, entre tradições sagradas e invenções malucas, e como os portugueses desenvolveram uma relação emocional fortíssima com ele.

A receita original, servida na Regaleira nos anos 50, tinha algumas diferenças em relação à maioria das francesinhas servidas hoje. Para começar, não era feita com pão de forma, mas sim com um pão bijou especial de formato alongado (tipo cacete pequeno) e de cinco quinas . Em vez de bife de vaca, utilizava carne de porco assada fatiada (perna assada) entre as camadas de queijo e enchidos . E pasme-se: não levava ovo estrelado nem vinha acompanhada de batatas fritas – essas adições tornaram-se comuns mais tarde . A “francesinha original” era, assim, uma espécie de sanduíche gratinada com queijo por cima e banhada em molho picante. Segundo os guardiões da tradição, se pedirmos uma francesinha autêntica na Regaleira hoje, ainda a servem dessa forma antiga, para quem quiser provar como tudo começou .

Claro que, quando a francesinha se espalhou por outros estabelecimentos, cada casa foi dando o seu toque. Nos anos 60 já havia francesinhas a aparecer também em Gaia e Matosinhos – diz-se que um amigo do Regaleira levou a receita do molho para o Café Mucaba em Vila Nova de Gaia, contribuindo para a divulgação precoce do prato . Cada restaurante começou a criar o seu molho “secreto”, o que virou quase uma competição amigável: há molhos mais espessos, mais líquidos, mais avermelhados de tomate, ou mais castanhos com cerveja, alguns levam vinho do Porto, outros um toque de brandy – mas ninguém revela a fórmula completa. Esse misticismo do molho é parte da mística da francesinha; muitos fãs juram lealdade ao molho da sua casa favorita e dizem que o segredo “morre com o cozinheiro”.

Com o tempo, surgiram variações de recheio também. Ainda que a “santa trindade” original sejam linguiça, salsicha fresca, fiambre e a tal carne (bife ou assado) intercalados com queijo, alguns locais experimentaram substituir ou acrescentar ingredientes. Apareceram francesinhas com cogumelos, com frango/galinha em vez de carne vermelha, com porco desfiado, e até de atum ou bacalhau em versões marítimas . Já nos anos 60, na Póvoa de Varzim, criou-se uma variante local: a francesinha poveira . Esta versão poveira tinha particularidades: era servida num pão tipo cacete macio (conhecido como “pão de francesinha” lá), recheada de fiambre, linguiça, queijo, manteiga e mostarda, com molho por cima . Inicialmente era feita para se comer à mão, embrulhada em guardanapo, como comida rápida para quem saía da praia – uma francesinha portátil, digamos . Só mais tarde a Póvoa adotou também a versão no prato com batata frita, chamando essa de “francesinha especial”. Até hoje, a Francesinha Poveira resiste como especialidade distinta, uma espécie de “prima” da portuense.

Não adoro francesinhas. Mas a história delas é deliciosa.
Francesinha Poveira

Nos anos seguintes, e sobretudo a partir das décadas de 1980 e 1990, a febre da francesinha só cresceu. O prato espalhou-se por todo o país – primeiro pelo norte, depois pelo resto. Cada cidade tentou replicar a iguaria portuense para matar a saudade dos estudantes e trabalhadores que se mudavam do Porto (afinal, quem prova uma boa francesinha fica fã). Em Lisboa, Coimbra e noutras cidades começaram a surgir restaurantes especializados em “Francesinha à moda do Porto”. Claro, os tripeiros dirão que fora do Porto nenhuma sabe igual – e há alguma verdade sentimental nisso. Ainda assim, a expansão tornou a francesinha um fenómeno nacional.

Francesinhas fora do Porto

A francesinha nasceu no Porto, mas rapidamente se espalhou por outras cidades do Norte, ganhando sotaques próprios. Braga e Vila Real são dois bons exemplos de como a receita evoluiu sem perder a alma. Cada cidade dá o seu toque ao molho, ao tipo de carne e até à forma de servir. Eis o que muda — e onde se sente.

Braga: amanteigada, espessa e com toque de fila

Em Braga, o molho tende a ser mais espesso, de cor amarelada e com um sabor mais amanteigado do que o do Porto. Há uma inclinação para experimentar: carnes mais suaves, combinações criativas e uma certa sofisticação no empratamento. O estilo que domina é muitas vezes conhecido como “à Belga”, nome inspirado num dos restaurantes mais procurados da cidade — a Taberna Belga — onde o molho divide opiniões mas a fila na rua é quase sempre consensual. Para quem prefere evitar longas esperas, há boas alternativas no centro como o Londrina (mais próximo do estilo Belga) ou o Eusébios (mais ao estilo tradicional portuense).

Vila Real: espesso e com sabor a cocktail

Já em Vila Real, o molho é também espesso, mas destaca-se por ter um sabor que lembra molho de cocktail, com notas mais adocicadas e aromáticas. A base é geralmente fiel à tradição: pão, bife, linguiça, queijo — mas o molho é o que marca a diferença. Aqui, a francesinha é muitas vezes tratada como um prato de conforto robusto, com raízes transmontanas. Um restaurante emblemático é o Cardoso, conhecido localmente por manter o sabor intenso e caseiro da francesinha tradicional, sem ceder a modas ou modulações.


Exageros Criativos

Com a fama vieram também os “exageros criativos”. Hoje em dia encontramos de tudo: francesinhas mega com tudo lá dentro (há casas que põem bacon, chouriço, e sei lá mais o quê, transformando a sanduíche numa torre calórica), francesinha com gambas ou frutos do mar (heresia para alguns!), versões gourmet com pão artesanal e carnes exóticas, e até experiências híbridas como a “francesinha em pizza” ou “francesinha em rissol” – sim, a criatividade não tem limites.  Em 2018, um restaurante do Porto criou a que se chamou “a maior francesinha do mundo”, com mais de 5 kg de peso! Era uma francesinha gigante destinada a desafios de comer – e houve quem conseguisse devorá-la em menos de uma hora, ganhando 250 euros pelo feito . Esta moda dos desafios, importada dos EUA, mostra como a francesinha entrou também na cultura pop atual.

Não adoro francesinhas. Mas a história delas é deliciosa.
A maior Francesinha do mundo 5KG

Uma francesinha típica servida com o seu mar de molho e batatas fritas ao lado exemplifica bem a generosidade deste prato. Cada componente tem um papel: o pão absorve o molho, as carnes dão sustento, o queijo liga tudo e o molho… ah, o molho é poesia líquida (picante) que eleva a experiência. Não admira que portugueses e estrangeiros fiquem rendidos: quem prova descreve a francesinha como “uma festa no prato” e volta sempre para mais . Da humilde origem numa cozinha portuense de 1953 até às mesas de todo o país, a francesinha evoluiu e multiplicou-se, mas sem nunca perder aquele espírito travesso e saboroso que a tornou famosa.

Antes de terminar, passemos a uma última seção Onde comer uma boa francesinha, para os verdadeiros amantes (ou simples curiosos) da francesinha. Afinal, uma história tão rica merece uns petiscos extra de informação!

Onde comer uma boa Francesinha (no Porto e fora dele)

Falar de francesinha e não dar sugestões de onde a provar seria imperdoável! Aqui vão alguns restaurantes icónicos para saborear este prato, tanto no Porto como além:

  • Porto – os clássicos imperdíveis: Café Santiago (na Rua Passos Manuel) é muitas vezes citado como servindo das melhores francesinhas da cidade – molho equilibrado e fila à porta, prepare-se. Bufete Fase (na Rua de Santa Catarina) é lendário: lugar pequeno, só faz francesinhas, receita caseira e picante na medida. Yuko Tavern (Av. da Boavista) e Cervejaria Brasão (vários locais no Porto) também são muito elogiados, cada qual com seu estilo de molho. E claro, A Regaleira (reaberta na Rua do Bonjardim, noutro número) para quem quer provar a francesinha original com pão bijou e feeling vintage – uma verdadeira viagem no tempo com sabor .
  • Fora do Porto – espalhando a fama: Em Lisboa, embora alguns nortenhos sejam céticos, há boas francesinhas também. A Cervejaria Trindade já serviu francesinha à moda do Porto; casas como A Taberna Portuguesa ou Porto Lisboa (que trazem receitas do norte) podem matar a saudade. Em Coimbra, destaca-se o restaurante Notes Bar & Kitchen, conhecido por uma francesinha vegetariana tão boa que ganhou prémios (sim, vegetarianos também podem entrar na festa, já lá vamos). Em Guimarães/Viseu/Leiria, a cadeia Taberna Londrina fez sucesso com francesinhas deliciosas e expandiu-se pelo país – uma curiosidade: o nome “Londrina” é da praça em Guimarães onde nasceu, nada a ver com Londres!
  • Internacional: Acredite, a francesinha já cruzou fronteiras. Há cafés portugueses em Londres e outras cidades europeias onde se encontra o prato (a saudade assim o exige). E em 2024, a já citada Taberna Londrina deu um passo gigante: abriu um restaurante nos arredores de Paris, França – sim, a francesinha foi conquistar a terra da “francesa” que lhe deu nome! Os fundadores dizem que querem “globalizar a francesinha, um prato tão único e só nosso”, levando a gastronomia portuguesa aos franceses . Ironias do destino deliciosas: agora os parisienses podem provar uma “little Frenchie” feita por portugueses, fechando o círculo cultural. 

E embora continue sem ser um devoto da francesinha — talvez porque nunca encontrei a tal —, depois de mergulhar nesta história percebo melhor a paixão que desperta. No fundo, cada prato é também uma narrativa: tem origem, conflitos, protagonistas e até finais improváveis. E isso, para mim, é o mais saboroso. Se a francesinha continua a dividir opiniões e a reinventar-se década após década, é porque tem alma. E isso já é muito. Bom apetite — ou, se forem como eu, boa leitura.

]]>
<![CDATA[Largo do Jogo da Bola, Ericeira]]>Hoje chama-se Praça da República, mas toda a gente a conhece por Jogo da Bola. Já foi largo, hoje é praça. Já teve vários nomes — e sempre guardou o mesmo papel: ser o coração pulsante da

]]>
https://afuga.pt/largo-do-jogo-da-bola-ericeira/67ecffe2ecfcf50001ad74d6Thu, 03 Apr 2025 18:21:39 GMT

Hoje chama-se Praça da República, mas toda a gente a conhece por Jogo da Bola. Já foi largo, hoje é praça. Já teve vários nomes — e sempre guardou o mesmo papel: ser o coração pulsante da vila, à beira-mar, entre a areia das praias e os campos de Mafra.

Origens e Séculos XVI a XVIII

Nas suas origens, o nome Largo do Jogo da Bola nada tinha a ver com futebol. Era palco de um jogo então bastante popular, que consistia em lançar uma pesada bola de madeira (de oliveira ou pinho), com cerca de 20 a 25 cm de diâmetro, contra paulitos igualmente de madeira, dispostos sobre um quadrado de pedra em grupos de 9 ou 12. Uma espécie de cruzamento entre a petanca e o bowling, com o objetivo de derrubar o maior número de peças.

No centro do largo existia um cofre de pedra, com tampo e fecho de ferro. Os jogadores pagavam ali “o barato” — uma pequena quantia pelo aluguer do recinto. O valor arrecadado revertia para a Irmandade das Almas, ereta na Igreja de São Pedro, no largo com o mesmo nome. Por essa razão, este passatempo ficou também conhecido como Jogo das Almas.

Diz-se que até as pedras da calçada conheciam o som da bola a rolar.

Durante os séculos XVI e XVII, o jogo tornou-se tão popular que acabou por ser proibido a fidalgos, cavaleiros, mecânicos e homens de trabalho. Diziam que era um vício, um perigo, uma distração. Chegou mesmo a gerar conflitos e tragédias. Em 1656, dois condes desentenderam-se no calor de uma jogada — um deles acabou ferido de morte.

Já no século XVIII, o Jogo da Bola mantinha-se em voga em vários pontos do país: Arouca, Santa Cruz de Coimbra, Mafra, Ericeira.

De todos os recintos de jogo então existentes, apenas um chegou aos nossos dias em bom estado de conservação: o dos frades de Mafra, no Jardim do Cerco.

Um casamento “real”

Corria o ano de 1585, e o largo viu-se envolvido numa cerimónia insólita…

Mateus Álvares, um falso D. Sebastião, apareceu numa pequena ermida em São Julião, a três quilómetros da vila. Montado a cavalo, entrou no Jogo da Bola para se encontrar com Ana Susana, filha de um importante lavrador. Vestida de azul-celeste, também montada, foi coroada rainha com uma coroa retirada de uma imagem da Virgem. Casaram-se ali mesmo, perante o povo.

Mais tarde, o falso rei reuniu um exército de mil homens, mas foi capturado, enforcado, decapitado e esquartejado. Muitos dos seus seguidores foram executados — alguns na temida Rua do Alto da Forca.

Século XIX

O Fim da independência da Ericeira

Ainda hoje há quem se lembre das vozes indignadas no Largo do Pelourinho…

A 24 de Outubro de 1855, a Ericeira perdeu a sua independência. Foi anexada ao concelho de Mafra, pondo fim a 626 anos de autonomia. À época, a vila mostrava maior dinamismo económico e social do que Mafra, sendo então o quarto maior porto do país, a seguir a Lisboa, Porto e Setúbal.

A decisão foi recebida com revolta pelos ericeirenses, que se reuniram no Largo do Pelourinho em forma de protesto. A partir dessa data, a toponímia das ruas passou a ser da responsabilidade da Câmara Municipal de Mafra.

Calcetada e arborizado

Com o crescimento económico da Ericeira, o Jogo da Bola ganhou nova vida. Em 1865, o cofre de pedra foi enterrado, a terra batida deu lugar à calçada, e o largo passou a ser arborizado. Novas lojas abriram e o espaço transformou-se num ponto central de comércio e lazer.

Largo Dona Amélia

Em 22 de maio de 1886, no Palácio de Belém, celebrou-se o casamento entre o príncipe D. Carlos e a princesa D. Amélia de Orleães. A cerimónia religiosa teve lugar na Igreja da Ajuda, com grande pompa, seguindo o protocolo régio. D. Amélia tornou-se Princesa Real de Portugal e, mais tarde, Rainha Consorte quando D. Carlos subiu ao trono, em 1889.

A Câmara de Mafra decidiu dar ao largo o nome oficial de Largo Dona Amélia. Mas a população resistiu — e o nome Jogo da Bola manteve-se firme no vocabulário popular.

Décadas de 1910 a 1930

Praça da República

Com a República, o nome oficial mudou — mas o do povo nunca mudou.

Com a implantação da República, em 1910, o largo foi rebatizado oficialmente de Praça da República. No entanto, o nome Jogo da Bola resistiu com força — e permanece, até hoje, na boca do povo, passado de geração em geração como um selo identitário.

Os primeiros autocarros (1914)

Quem ouviu o motor roncar pela primeira vez no largo nunca esqueceu.

No dia 1 de setembro de 1914, deu-se início ao serviço de duas carreiras diárias entre a Ericeira e o Lumiar, em Lisboa. Os autocarros partiam do Jogo da Bola, atravessando Mafra, Loures e outras localidades. O preço da viagem era de 700 réis e os veículos transportavam até 30 passageiros. Segundo Jaime Lobo e Silva, eram “muito cómodos”.

Durante a Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1916, o serviço foi interrompido. O trajeto passou a ser feito em camiões, num regresso forçado à dureza das estradas.

Memórias de António Batalha Reis 

A Ericeira era um destino com alma. E os caminhos até lá também tinham histórias.

Palavras de António Batalha Reis, Bloco nº 7 , Ericeira, 1980, (manuscrito)

“Até ao estabelecimento da linha de Sintra, quando se partia de Lisboa, saía-se cedo, de trem, para ir almoçar à Malveira e aproveitava-se para dar descanso aos cavalos. Havia em que fosse de comboio até à Malveira e depois em diligência, ou de trem, ou a cavalo mas era menos usual esta forma de chegar à Ericeira. 
Eu já não apanhei esse sistema “antiquado”. Nós vamos de comboio até Sintra e aí tomávamos dois trens que nos levavam à Ericeira pela estrada que ainda é utilizada mas hoje de asfalto, sem a poeira de então.
Estes trens eram do António Gaspar, o importante negociante da Ericeira, que tinha também a diligência de 'char-a-banc' Sintra - Ericeira e galeras de aluguer. Ainda o conheci muito bem e aos cocheiros sempre os mesmos, que nos serviram, até que a diligência de mulas foi substituída pela camioneta, e as cavalariças e coceiras passaram a ser garagens. A essa transformação assisti com certa saudade” 

O Char-à-banc e os cocheiros

O char-à-banc (do francês “carro com bancos”) era um tipo de veículo de transporte coletivo em uso entre os séculos XIX e XX. Tratava-se de uma carruagem ou autocarro aberto, com vários bancos dispostos em fileiras paralelas. Em Portugal, os char-à-bancs desempenharam um papel importante no transporte público, sobretudo em áreas suburbanas e rurais.

Inicialmente puxados por cavalos, estes veículos viriam a ser adaptados à motorização — tornando-se precursores dos autocarros modernos. Eram frequentemente usados para transportar passageiros entre Lisboa e destinos como Sintra, Mafra e Ericeira. A sua capacidade e abertura ao exterior tornavam a viagem não só eficiente, mas também panorâmica: quem viajava podia desfrutar da paisagem com o vento no rosto.

“Era um passeio e um postal ao mesmo tempo” — diziam os mais velhos.

“Um desses cocheiros era o Pirata, sem perna de pau mas com a perna direita deformada e torta e que assim ficou depois de uma galera passar por cima dela. Tanta paciência que ele tinha para nós! Ver, em Lisboa, o Pirata sorridente, coxeando, de colete e mangas arregaçadas, que deixavam ver a camisola encarnada, sempre de barrete preto de borla, anunciar que estava ali a galera para levar as coisas para a Ericeira…
Enquanto circularam as galeras de mulas, o Pirata manteve-se na brecha … até vir a camioneta que matou a galera e, com ela, o Pirata. 
Pobre Pirata que conversava com as suas mulas durante as horas intermináveis daqueles 50 quilómetros [Lisboa à Ericeira] que, a passo sonolenta mas seguro, tinham de percorrer com as nossas coisas, esse mundo de coisas que iam dar algum conforto à decoração espartana da casa de Santa Marta ou das Ribas. 
Mas, retomando o caminho de Sintra: era obrigatória uma paragem a cerca de meia estrada, isto é, em Odrinhas, para descansar os cavalos. A paragem, é claro, era defronte de uma taberna, porque, euquanto os cavalos roíam a ração, os cocheiros molhavam a goela em dois copos de tinto. Para nós pequenos, aquela paragem era um eldorado, porque, nós também bebíamos um pirolito, daqueles de vidro, que era o nosso encanto: logo à saída de Sintra já vínhamos a pensar nele.
Havia duas qualidades, a que correspondiam dois preços, os brancos, mais fracos e mais baratos e os de cor, mais fortes e mais caros; eu bebia sempre um de cor, porque tinha mais gás, o que depois, me obrigava a arrotar o gás pelo nariz, delicioso.
Quando se saía de Odrinhas, só faltava meio caminho, e o andamento tomava um tom mais sostenuto. O Alto da Foz era miragem de atração, quando no topo da ladeira que nasce na ponte sobre o Lisandro, ao inflectir-se, à direita, a estrava debruçava-se sobre o mar, esse mar de que tantas saudades tínhamos e logo nos mimoseava com um forte cheiro a maresia. Depois, no alto da Sala de Visitas - um apreciável terreiro até à estrada, hoje muito reduzido por sucessivos desprendimentos de terra -, a Ericeira dava-se à nossa vista ávida, em toda a brancura das ruas, casas e telhados. Era a nossa Ericeira, em todo o seu esplendor, aninhada à beira do mar grande e azul, que se orlava de espuma branca aos seus pés, que tantos encantos nos prometia e dava”

Décadas de 1940 e 1950

Largo dos Namoricos

Diziam os antigos que o verão fazia o largo brilhar de outra forma.

Durante as décadas de 1940 e 1950, a Ericeira tornou-se refúgio de verão para muitas famílias lisboetas. O Jogo da Bola era o palco principal da vida social. Depois do jantar, os jovens passeavam em círculos — no chamado “picadeiro” — trocando olhares sob o olhar atento das mães sentadas nos bancos de pedra. O miradouro da Sala de Visitas servia de cenário aos namoricos e às primeiras juras de amor.

“No verão sempre houve um ambiente especial. Antigamente vinham muitas famílias de fora aqui passar longas temporadas — as pessoas mais modestas, pescadores e suas mulheres, chamavam-lhes ‘senhoritas’ — e eram elas que davam um ambiente especial à vila. Nessa altura, o Jogo da Bola era ponto obrigatório de reunião; as pessoas entretinham-se a dar voltas à praça — fazia-se o que todos chamavam de ‘picadeiro’ — assim como ir até à Sala de Visitas, miradouro por cima da praia do Sol, ‘cenário de amor’ para muitos pauzinhos daquela época, finais dos anos quarenta, anos cinquenta.”

António Caiado, in “A Ericeira vista por quatro gerações”

Largo do Jogo da Bola, Ericeira
Fazendo o "picadeiro", trocando olhares sob o olhar atento das mães sentadas nos bancos de pedra.

Concertos de Música

Às quintas e domingos, a música enchia o ar.

No início do verão, construía-se uma barraca que servia de coreto improvisado. A Banda Filarmónica da vila tocava duas vezes por semana, trazendo ritmo e solenidade aos fins de tarde no largo. Famílias inteiras saíam à rua para ouvir a música, conversar e partilhar momentos — numa vila que, pouco a pouco, se modernizava sem perder o encanto.

Maria Paurita

Dizem que nesse dia até o mar parou por instantes.

Em 1932, uma tragédia abalou o coração da vila. Uma camioneta, carregada com três cascos de vinho do Bombarral, perdeu o controlo na descida e embateu contra a Casa das Cavacas, no canto do largo. No seu caminho, atropelou Maria Paurita, uma figura conhecida por vender castanhas e pevides sempre no mesmo lugar. Teve morte instantânea.

O vinho espalhou-se pela rua abaixo — chegou-se a dizer que corria até Santa Marta — e um rapaz que viajava a dormir no veículo escapou apenas com um banho alcoólico e um susto. O motorista e os outros ocupantes ficaram feridos. A vila ficou em choque. Nunca mais o lugar foi o mesmo.

Refugiados da Segunda Guerra Mundial

Naquela noite fria de janeiro, a Ericeira tornou-se porto de abrigo.

Na noite de 1 de janeiro de 1942, por volta das onze da noite, chegaram à vila as primeiras camionetas com refugiados da Segunda Guerra Mundial. Vinham de Lisboa — cerca de 70 ou 80 pessoas — entre elas franceses, romenos, polacos, italianos, belgas e holandeses. A maioria eram judeus. Havia aristocratas, bailarinos, músicos, jornalistas. Todos sob vigilância da Polícia Internacional.

Desceram no antigo terminal do Jogo da Bola. Foram acolhidos em pensões e casas particulares da vila. Por uns meses — ou anos — o largo passou a ser também o lugar de quem fugia do horror.

👉 Para saber mais, lê o artigo: A Ericeira e os refugiados da Segunda Guerra Mundial

Café Bijou Arcada

Antes era a Cervejaria Lopes. O Café Bijou Arcada (hoje o Turismo ), situado no topo sul do Jogo da Bola (Praça da República), "ponto de reunião do núcleo republicano-democrata da oposição local ao regime politico então vigente"

Uma visita real

Dizem que Dona Amélia chorou em silêncio diante do mar.

A 20 de junho de 1945, Dona Amélia de Orleães e Bragança, última rainha de Portugal, voltou ao país 35 anos após a queda da monarquia. Vivia exilada em França e aceitou o convite de Salazar para uma visita oficial.

A bordo do Sud-Express, atravessou a Península até Lisboa. Os filhos não a acompanharam. Um fora assassinado em 1908 - o príncipe Luís Filipe, com apenas 20 anos, morto a tiro juntamente com o seu pai, no regicídio, no Terreiro do Paço - , outra morrera em criança, e o mais novo faleceria aos 42 anos- inesperadamente com uma reacção alérgica forte - no exílio em Inglaterra.

Na Ericeira, Dona Amélia fez uma breve paragem no Largo do Jogo da Bola, então oficialmente Praça da República. Seguiu até ao Miradouro das Ribas, onde, segundo se conta, se debruçou sobre o muro e chorou em silêncio, recordando a fuga apressada de 1910.

👉 Lê mais sobre a fuga da monarquia: O fim da monarquia acontece na Praia dos Pescadores

Décadas de 1980 até hoje

Fechado ao Trânsito

Diz-se que, quando os carros saíram, a vila voltou a escutar os passos das pessoas.

A partir da década de 1980, o Largo do Jogo da Bola começou a ser encerrado ao trânsito. A mudança não foi pacífica — alguns comerciantes mostraram resistência. Mas pouco a pouco, as vantagens tornaram-se evidentes: o espaço tornou-se mais agradável, mais seguro, mais humano. Plantaram-se árvores, assentaram-se novas calçadas, e o ambiente comercial e de lazer floresceu.

O encerramento total ao trânsito viria a acontecer apenas em 2002. Foi o início de uma nova fase — mais tranquila, mas cheia de vida.

Negócios e memória

Cada esquina guarda uma história. Cada loja, um passado que se reinventou.

A Casa das Cavacas deu lugar a uma loja de roupa. O espaço hoje ocupado pelo posto de turismo foi em tempos o famoso Café Bijou Arcada. Onde hoje há um relógio e um marcador de temperatura, havia um polícia sinaleiro. Existiu ali uma bomba de gasolina, uma estação de autocarros, e o Café Salvador — que mudou de gerência, mas manteve o nome.

O Largo hoje

Hoje, o Largo do Jogo da Bola é um espaço pedonal, vivo e dinâmico. Há cafés, pastelarias, geladarias, farmácia, lojas de roupa, galeria de arte e um pequeno centro comercial. O largo acolhe concertos, mercados, exposições, presépios de Natal e artistas de rua. A animação, que em tempos se concentrava no verão, agora atravessa o ano inteiro.

O Jogo da Bola não é apenas uma praça. É memória viva. É património. É identidade. É a alma da Ericeira — onde o passado e o presente continuam a encontrar-se, todos os dias.

]]>
<![CDATA[Segredo no Tacho, Sabor no Pão: A História da Bifana]]>Quando se fala da origem da bifana, muitos apontam imediatamente para o Alentejo — mais precisamente, para a cidade de Vendas Novas.

Ninguém sabe ao certo quem foi a primeira pessoa a colocar febras de porco num papo-seco estaladiço, mas há um consenso saboroso: foi

]]>
https://afuga.pt/segredo-no-tacho-sabor-no-pao-a-historia-da-bifana/67e5d5ded2cde900014013c9Thu, 27 Mar 2025 23:13:33 GMT

Quando se fala da origem da bifana, muitos apontam imediatamente para o Alentejo — mais precisamente, para a cidade de Vendas Novas.

Ninguém sabe ao certo quem foi a primeira pessoa a colocar febras de porco num papo-seco estaladiço, mas há um consenso saboroso: foi algures em Vendas Novas, há várias décadas, que esta iguaria ganhou forma. As bifanas de Vendas Novas tornaram-se tão emblemáticas que o próprio município registou a marca “Bifanas de Vendas Novas” em 2011. A cidade orgulha-se do título de capital da bifana.

A história popular aponta para a década de 1960. 1968 é frequentemente citado como o ano de nascimento da receita original, num modesto café — o lendário Café Boavista, situado junto à Estrada Nacional 4 (EN 4).

Numa localização estratégica — a EN4 era a principal via entre Lisboa e o interior alentejano, muito antes das autoestradas — e Vendas Novas, a porta de entrada do Alentejo. O café tornou-se paragem obrigatória para camionistas, vendedores e famílias em viagem. Era ali que “matavam o bicho” com uma bifana acabada de fazer.

Segredo no Tacho, Sabor no Pão: A História da Bifana
Café Boavista, Vendas Novas, Estrada Nacional 4

O Café Boavista ainda hoje existe e mantém a tradição. Maria Clara Isabel tomou conta do negócio, ao lado do seu marido, Manuel Cardante, há mais de 40 anos. No início, serviam “de tudo um pouco” - de feijoadas a caracóis - mas o apelo da bifana falou mais alto.

A procura era tanta que deixei o resto de lado”, contou ao Expresso em 2017. 

Foi então que reformulou a ementa e apostou tudo nas bifanas, com base numa receita familiar.

Hoje, ainda se batem os bifes de lombo até ficarem tenros, fritam-se no molho especial -  em frigideiras desenhadas especificamente para bifanas -  e servem-se em papo-seco torrado. Quando o Expresso lhe perguntou pelo resto da receita, ela sorriu e respondeu, “O resto é segredo”. 

Segredo no Tacho, Sabor no Pão: A História da Bifana
Maria Clara Isabel, antiga proprietária do Café Boavista. Apelidada por muitos como a “rainha das bifanas”

Cada café guarda o seu toque, mas a base é comum: vinho branco, alho, louro e, talvez, um toque de pimentão ou piripíri. No fundo, o segredo está nas mãos de quem as faz.

Vendas Novas transformou-se numa verdadeira “Meca” da bifana. Estima-se que, só na cidade se vendam cerca de 3.000 bifanas por dia — quase um milhão por ano.

Em 2024, as festas do concelho celebraram esse orgulho com criatividade: foi lá que se cozinhou a “Maior Bifana do Mundo”, com um pão de 15 metros feito pela padaria local e cerca de 32 kilos de bifanas de vários cafés da cidade. Estima-se que cerca de 1000 pessoas provaram esta gigante bifana.

Segredo no Tacho, Sabor no Pão: A História da Bifana
A Maior Bifana do Mundo, sábado 9 de Setembro de 2024

Curiosamente —  numa poesia triste — Maria Clara Isabel, antiga proprietária do Café Boavista,  faleceu no sábado em que a cidade cozinhava a “Maior Bifana do Mundo”. Tinha 69 anos. Guardiã de décadas de tradição no Café Boavista, partiu no mesmo dia em que Vendas Novas celebrava o seu mais famoso petisco. 

A coincidência tocou profundamente a comunidade local, que reconhece nela uma das grandes responsáveis por levar o nome da bifana além fronteiras. O seu legado, tal como o aroma da bifana quente, permanecerá no ar por muito tempo.

Histórias, curiosidades e lendas da bifana

Nenhuma boa história gastronómica fica completa sem umas pitadas de lendas e curiosidades. E a bifana tem várias!

Antes de Vendas Novas reclamar o trono da bifana, já se falava das famosas bifanas de Casa Branca — uma aldeia que nasceu com o comboio, no concelho de Montemor-o-Novo.

A estação de Casa Branca, inaugurada em 1857, no tramo Vendas Novas - Évora, hoje conhecida como Linha do Alentejo (Norte-Sul) . Catorze anos depois, em 1871, foi inaugurada a Linha de Évora (Este-Oeste). 

Segredo no Tacho, Sabor no Pão: A História da Bifana
Casa Branca, aldeia ferroviária, concelho de Montemor-o-Novo, freguesia de Santiago do Escoural

Nos tempos áureos dos comboios a vapor, a estação de Casa Branca foi, durante décadas, paragem obrigatória nas ligações entre Lisboa e o Alentejo profundo.  Foram construídas casas para os ferroviários, uma escola, e surgiram cafés e restaurantes para quem esperava a chegada dos comboios.  Uma terra de passagem, mas com sabores que ficavam. 

Conta a lenda que, num desses lugares junto à estação, uma mulher de avental florido e mãos de trabalho servia o que havia: pão, vinho e carne. Mas um dia, a carne tinha vindo dura. “Assim ninguém mastiga”, murmurou ela. Pensou, pegou no vinho branco - que por ali nunca faltava - esmagou dentes de alho com um murro bem dado, juntou louro, um pouco de banha e deixou a carne a amolecer no molho, em lume brando, como quem conta segredos ao fogão. O cheiro espalhou-se pela rua como se fosse anúncio de festa. 

Mais tarde, já com a tradição firmada, Maria Eugénia, começou, há mais de 50 anos a servir bifanas num pequeno café de azulejos na parede, junto à estação.

Segredo no Tacho, Sabor no Pão: A História da Bifana
Café de azulejos na parede onde, durante, 40 anos, Maria Eugénia, serviu bifanas
“Vinha muita gente nos comboios, soldados,  marinheiros… muita gente.. o comboio parava um quarto de hora e eu cheguei a vender uma centena de bifanas”, recorda Maria Eugénia

As bifanas de Casa Branca chegaram a ser afamadas. Infelizmente, com o declínio do movimento ferroviário, a tradição foi-se perdendo; hoje já quase não se servem bifanas nessa estação - foram trocadas pelas sandes e bolos. Ficou a memória estampada nas conversas dos que a viveram. 

Mas então, Casa Branca ou Vendas Novas? Afinal, onde nasceu a bifana? 

A origem da bifana, como tantas receitas populares, está envolta em mistério, memórias e tradição oral. Duas localidades disputam — sem rivalidade, mas com orgulho — o berço desta iguaria portuguesa:

• Vendas Novas é considerada o berço “oficial” da bifana. Foi lá que, nos anos 1960, a receita ganhou forma moderna e reconhecimento nacional, especialmente no Café Boavista. A cidade registou a marca “Bifanas de Vendas Novas” em 2011 e assumiu com orgulho o título de capital da bifana.

• Casa Branca, pequena aldeia ferroviária de Montemor-o-Novo, tem histórias ainda mais antigas, contadas por quem lá viveu: bifanas vendidas junto à estação desde os tempos dos comboios a vapor, feitas com carne de porco amolecida em vinho, alho e louro.

Não há registos formais que comprovem uma origem única. O mais provável? Que a ideia de pôr carne de porco no pão tenha surgido em vários pontos do Alentejo ao mesmo tempo — em cafés de estrada, estações de comboio e tascas humildes.

No fundo, a bifana nasceu onde havia fome, engenho e pão fresco. E disso, o Alentejo sempre esteve bem servido.

Do Alentejo ao resto do país: bifanas para todos os gostos

Seria de esperar que uma ideia tão simples — carne de porco bem temperada dentro de pão fresco — rapidamente conquistasse outras paragens. E assim foi. Hoje, encontramos bifanas de norte a sul, muitas vezes com variações regionais deliciosas.

Em Lisboa, por exemplo, há várias tascas célebres, mas é impossível não mencionar as Bifanas do Afonso, no centro da cidade. Numa portinha discreta da Rua da Madalena, perto do Rossio, o Sr. José Afonso começou a servir bifanas em 1975, mal chegava a democracia. O sucesso foi imediato: cinco décadas depois, aquele balcão minúsculo já viu gerações de lisboetas e turistas formarem longas filas pela manhã fora, à espera de uma bifana pingando molho.

O molho, aliás, é o orgulho da casa — feito com banha, alho, louro e outros temperos — e a tradição mantém-se quase intacta desde o início. Conta-se que os clientes habituais conseguem furar as filas de turistas entrando pela porta lateral, privilégio conquistado pela fidelidade à casa. Não admira que muitos considerem esta a melhor bifana da capital — aquela que, como dizem alguns críticos gastronómicos, “eleva a carne de porco a outro patamar”.

Segredo no Tacho, Sabor no Pão: A História da Bifana
As Bifanas do Afonso, tasca de referência para bifanas em Lisboa.

Entretanto, no Porto, a bifana ganhou sotaque próprio e um lugar de destaque ao lado da famosa francesinha. A versão portuense costuma vir afogada num molho apimentado e a carne é laminada em tiras finíssimas. O sítio mais icónico? Sem dúvida, a Casa das Bifanas Conga, na Rua do Bonjardim.

Aberta em 1976 por Manuel Oliveira — um empreendedor regressado de Angola — a Conga viu as panelas esvaziarem em poucas horas logo no primeiro dia, tal foi a corrida às bifanas com molho picante “tão maravilhoso” que ele tinha inventado.

“No dia em que o restaurante abriu, passadas três horas a carne esgotou. Foi uma loucura, ninguém estava à espera”, recorda Sérgio Oliveira, filho do fundador, em conversa com Culinary Backstreets.

A fórmula de sucesso? Panelas bem à vista do público, fervilhando com carne a cozinhar lentamente num molho de segredos - fala-se em piripíri, cominhos, vinho e outras especiarias. O aroma espalha-se pela rua e atrai todo o tipo de clientes — de estudantes a turistas acabados de aterrar, que vão diretos do aeroporto à Conga, malas na mão, só para matar saudades daquela bifana.

Hoje, a Conga serve mais de mil bifanas por dia e já teve de ampliar as instalações para dar vazão à procura. No Porto, outras casas seguiram o exemplo, e a “bifana à moda do Porto” tornou-se presença obrigatória em festas, romarias e noites bem regadas no Norte.

Claro que bifanas há muitas — e por todo o país. Em praticamente todas as cidades portuguesas encontramos alguma versão: seja a sandes típica de feiras, servida com mostarda e molho a pingar pela mão, seja a bifana no prato, acompanhada de batatas fritas, ovo estrelado ou queijo derretido por cima — adaptações modernas que também conquistam fãs.

Mas a essência mantém-se: carne de porco marinada até ficar saborosa e macia, servida num pão estaladiço.

Cada terra adiciona o seu toque especial. Uns juram que o truque é usar vinho tinto em vez de branco na marinada, outros defendem o uso de banha de porco para fritar e dar sabor. Há quem tempere com pimentão doce para dar cor alaranjada ao molho, outros carregam no alho.

E assim, tal como a nossa gastronomia, a bifana vai ganhando apelidos e estilos. Com presença obrigatória nas noites de Santos Populares e nos estádios antes do apito inicial.

A bifana na vida social 

A bifana esteve também ligada à história social de Portugal. Nos anos que se seguiram à Revolução de 25 de Abril de 1974, o país vivia dias de mudança e escassez. A bifana tornou-se uma refeição rápida e acessível — a carne de porco era relativamente barata e disponível, ao contrário de outras carnes, e o pão, esse, nunca faltava.

Foi assim que muitos tascos e rulotes ganharam a vida nessa época, vendendo bifanas embrulhadas em papel pardo aos trabalhadores das novas fábricas ou aos primeiros públicos dos festivais de verão que começavam a despontar.

Hoje, seja no futebol, na feira ou nas festas populares, é comum encontrarmos aquela rulote de bifanas: o tacho ao lume, o pão empilhado e um papel escrito à mão a anunciar “Há Bifanas!”. Essa cena aquece qualquer coração lusitano — porque faz parte da nossa memória coletiva de bons momentos, simples e saborosos.

Uma sandes, múltiplas histórias

A bifana pode ser apenas carne no pão, mas poucas comidas traduzem tão bem o espírito de Portugal: simplicidade, hospitalidade e sabor.

Desde as suas prováveis origens numa venda alentejana há mais de meio século até às longas filas nas grandes cidades de hoje, esta sandes acompanhou viagens de comboio, celebrações de santos, tardes de futebol e noites de festa.

Cada região lhe deu um toque único. Cada geração guardou uma memória associada a ela — seja a primeira bifana numa festa de aldeia, seja aquela sandes inesquecível comida à pressa numa estação de comboios.

Por tudo isto, a bifana não é apenas um petisco: é património gastronómico nacional. Celebrada tanto em Vendas Novas, onde nasceu e se aperfeiçoou, como em qualquer lugar onde haja um português esfomeado e um pão com febra quentinho a chamar por ele.

Da próxima vez que comer uma bifana, lembre-se destas histórias — e bom apetite!

]]>
<![CDATA[A Origem do Prego: Como um Bife no Pão Conquistou Portugal]]>A sandes de prego é típica de Portugal, composta por um bife tenro de vaca servido no pão (geralmente um papo-seco) e frequentemente temperado com alho e molho de mostarda ou picante. Este petisco tornou-se um elemento clássico das cervejarias e tascas portuguesas, com

]]>
https://afuga.pt/a-origem-do-prego-como-um-bife-no-pao-conquistou-portugal/67e422ee06b77700011c1b52Wed, 26 Mar 2025 16:39:02 GMT

A sandes de prego é típica de Portugal, composta por um bife tenro de vaca servido no pão (geralmente um papo-seco) e frequentemente temperado com alho e molho de mostarda ou picante. Este petisco tornou-se um elemento clássico das cervejarias e tascas portuguesas, com uma história curiosa por detrás do seu nome e da sua difusão pelo país.

Origens no final do século XIX

A origem histórica do prego no pão remonta ao final do século XIX, na zona de Sintra. Em 1889, Manuel Dias Prego – um dos primeiros habitantes da Praia das Maçãs, então uma recente estância balnear – abriu uma pequena taberna local. Nessa taberna, conhecida mais tarde como Taberna Prego, algures na primeira linha de praia na Rua Nossa Sra. da Praia. Manuel servia fatias de vitela (bife de vaca) fritas ou assadas dentro de pão fresco, acompanhadas por vinho de Colares, produzido na região. E, coisa rara na época, a taberna dispunha de esplanada. A iguaria rapidamente fez sucesso entre os veraneantes e habitantes da Praia das Maçãs e arredores, ganhando fama pela qualidade e sabor do petisco. O negócio floresceu e de taberna passou a casa de pasto (primeira imagem).

A Origem do Prego: Como um Bife no Pão Conquistou Portugal
Taberna do Prego de Manuel Dias Prego. Paria das Maças, Sintra, 1889.

O nome “Prego”: histórias e lendas

Com a popularidade do petisco, a sandes começou a ser chamada simplesmente de “prego”, numa alusão direta ao apelido do seu criador, Manuel Dias Prego . Assim, por volta do início do século XX, o nome do inventor ficou associado ao prato em todo o país, entrando no vocabulário popular para designar este bife no pão.

No entanto, existe também uma lenda popular para explicar a origem do nome. Diz-se que o termo surgiu do hábito de martelar os bifes com um maço de cozinha para os amaciar, “pregando” literalmente o alho à carne antes de a cozinhar. Ou seja, as pancadas secas soavam como marteladas de pregos nas tábuas de cozinha. Embora pitoresca, esta explicação lendária é vista como folclórica; a versão mais aceite é que a sandes foi batizada em homenagem a Manuel Prego, o taberneiro que a criou.

A Origem do Prego: Como um Bife no Pão Conquistou Portugal
Típico Prego em Papo seco

Popularização e evolução ao longo do tempo

Após o seu surgimento em Sintra, a receita do prego no pão espalhou-se rapidamente. No início do século XX, outros estabelecimentos passaram a imitar a iguaria, e o prego tornou-se presença habitual nas ementas de tabernas e cafés por todo o país  . Ao longo do tempo, manteve-se como uma refeição rápida e económica, apreciada tanto para matar a fome a meio do dia como petisco para acompanhar uma cerveja ao fim da tarde.

Inicialmente, o prego no pão era bastante simples – apenas o bife de vaca dentro do pão, por vezes com um pouco de molho do próprio cozinhado. Com o passar das décadas, pequenas alterações foram sendo introduzidas: por exemplo, tornou-se comum regar o pão com o molho da carne e juntar mostarda ou molho picante para realçar o sabor . Mais tarde, começou-se a adicionar queijo derretido por cima do bife (o chamado prego com queijo) tornou-se uma variação popular – algo ausente na receita original, mas hoje difícil de dispensar em muitos locais . Em alguns casos, acrescenta-se também fiambre ou até um ovo estrelado sobre a carne, transformando o prego numa refeição mais composta. Outra evolução foi a criação do prego no prato, em que o bife é servido no prato (normalmente com batatas fritas, arroz, salada e ovo) em vez de no pão – variante esta próxima do bitoque tradicional.

Embora a carne de vaca seja a tradicional neste prato, em momentos da história recente chegaram a surgir versões com carne de porco, especialmente durante a crise da “doença das vacas loucas” no início dos anos 2000, quando muitos evitavam carne bovina . Apesar disso, o prego manteve-se sobretudo de vaca e continuou a ser um dos petiscos favoritos dos portugueses ao longo do século XX e até aos dias de hoje.

Variações regionais significativas

Com a difusão nacional do prego, surgiram algumas variações regionais notáveis, adaptando a receita aos paladares locais ou ingredientes disponíveis:

• Lisboa e centro do país – Mantém-se a forma clássica do prego no pão, servido num papo-seco estaladiço. Na região de Lisboa popularizou-se o costume de saborear um pequeno prego como “sobremesa” após uma mariscada, aproveitando o bife no pão para fechar a refeição de marisco com um sabor forte de carne e alho .

• Alentejo – Existe o chamado prego no pão à regional, que além do bife inclui habitualmente tiras de bacon, ovo e pimentos, dando à sanduíche um caráter mais rico e substancial . Queijo derretido também pode fazer parte desta versão.

• Ilha da Madeira – O prego tornou-se numa especialidade local servida em bolo do caco, o pão tradicional madeirense. O bife (frequentemente marinado com alho e louro) é grelhado e colocado no bolo do caco barrado com manteiga de alho. É comum adicionar fatias de fiambre, queijo, folhas de alface, tomate e até ovo, criando o chamado prego especial madeirense . Esta versão oferece um sabor distinto graças ao bolo do caco e à manteiga de alho típicos da Madeira.

• Açores – Nos Açores, o prego no pão é também apreciado e adaptado. Em Ponta Delgada (São Miguel) realiza-se inclusive um Festival do Prego, reunindo diversas variantes locais e elegendo anualmente o melhor prego no pão , o que demonstra a popularidade e as adaptações regionais deste prato no arquipélago.

Além destas variações, é possível encontrar pregos com outros acréscimos conforme a criatividade de cada casa ou cozinheiro, mas o princípio base – um bom bife tenro de vaca dentro de pão – mantém-se inalterado. Em países de língua portuguesa como Angola ou Moçambique também se adotou o prego, muitas vezes com influências locais (por exemplo, usando piri-piri ou outros condimentos típicos) .

Em suma, a sandes de prego nasceu modestamente numa taberna de Sintra no século XIX e, graças ao seu sabor e simplicidade, evoluiu para um verdadeiro clássico da gastronomia portuguesa. Entre factos históricos e lendas culinárias, o prego no pão conquistou gerações de apreciadores e espalhou-se de norte a sul do país – e ilhas – assumindo variações regionais mas preservando a essência de um saboroso bife no pão, homenagem eterna ao Sr. Prego. Onde antes estava a Taberna do Prego, hoje encontram-se casas de habitação na praia das Maçãs em Sintra.

A Origem do Prego: Como um Bife no Pão Conquistou Portugal
Praia das Maçãs, em Colares, Sintra
]]>
<![CDATA[1910: O Fim da Monarquia Acontece na Praia dos Pescadores, Ericeira]]>https://afuga.pt/1910-o-fim-da-monarquia-acontece-na-praia-dos-pescadores-ericeira/67e08dd4dd724e00013bec90Sun, 23 Mar 2025 23:04:20 GMT

Ericeira, 5 de Outubro de 1910. A vila acorda em silêncio. No alto da falésia, centenas observam, entre respeito e emoção, a família real portuguesa descer à Praia dos Pescadores. O rei D. Manuel II, a rainha D. Amélia e a rainha-mãe D. Maria Pia caminham em direção a um pequeno barco de pesca, ironicamente chamado Bonfim. É dali que partirão para o exílio. O mar está calmo, mas o país acaba de mergulhar num novo capítulo: a República acaba de ser proclamada em Lisboa.

Este momento simbólico marca o fim de quase oito séculos de monarquia em Portugal — e o início de uma nova era. Mas como se chegou aqui? E por que razão a fuga aconteceu precisamente pela Ericeira?

As Tensões que Abalaram a Coroa

No final do século XIX, Portugal atravessava um período de grande instabilidade. O regime monárquico estava fragilizado por crises políticas, económicas e sociais. Entre o povo crescia a sensação de que o sistema já não respondia aos problemas do país.

De 1820 a 1910, Portugal viveu sob o modelo de monarquia constitucional. Na prática, o poder oscilava entre dois partidos — o Regenerador e o Progressista — cujas diferenças ideológicas eram mínimas. Instalou-se um bipartidarismo rotativo, onde os governos se alternavam sem grandes mudanças de rumo. Essa “dança de cadeiras” política gerou descontentamento, tanto nas zonas rurais, como nas cidades. A população começava a sentir-se esquecida e desiludida com a elite política.

Foi neste contexto que o Partido Republicano começou a ganhar força. Nascido à margem do sistema, começou por dar voz aos descontentes, defendendo uma ruptura com o regime e a construção de uma nova ordem política baseada na República, no progresso e na justiça social. Nas cidades, especialmente em Lisboa e no Porto, intelectuais, professores, comerciantes e operários juntavam-se ao movimento. Nas urnas, os republicanos começavam a conquistar deputados; nas ruas, preparavam o passo seguinte: a revolução.

A situação agravou-se com a governação do rei D. Carlos I, marcada por instabilidade política, sucessivos governos e crescente autoritarismo. Em 1907, a situação agravou-se quando o rei D. Carlos I, nomeou João Franco como chefe de governo com poderes alargados, o rei procurou restaurar a ordem — mas acabou por alienar ainda mais a oposição.

1910: O Fim da Monarquia Acontece na Praia dos Pescadores, Ericeira
Regicídio a 1 de Fevereiro em 1908 no Terreiro do Paço em Lisboa

A tensão atingiu o ponto máximo a 1 de fevereiro de 1908, quando o rei D. Carlos I e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe foram assassinados por Manuel Buiça e Alfredo da Costa em Lisboa, num atentado a céu aberto no Terreiro do Paço. Subiu ao trono D. Manuel II, filho mais novo do rei com apenas 18 anos e sem qualquer preparação para governar.

D. Manuel II: Um Rei Solitário num Trono Instável

Apesar das circunstâncias trágicas, D. Manuel II iniciou o seu curto reinado com a promessa de reconciliação. Demitiu João Franco, reabriu o Parlamento e procurou apaziguar os ânimos. Mas era tarde. A monarquia já não conseguia mobilizar apoio popular, e o movimento republicano estava mais organizado do que nunca.

Nos bastidores, preparava-se uma revolução. A 3 de outubro de 1910, o assassinato do médico Miguel Bombarda, figura proeminente do republicanismo, foi o catalisador. Na madrugada de 4 para 5 de outubro, tropas insurretas saíram às ruas de Lisboa e não encontraram grande resistência. No Tejo, o cruzador Adamastor, comandado por oficiais republicanos, bombardeou o Palácio das Necessidades, residência oficial do rei.

A Fuga: De Lisboa à Ericeira

Inicialmente, D. Manuel II recusou fugir. Terá dito: “Se a Constituição não me manda senão deixar-me matar, cumpri-lo-ei.” Mas, com o palácio sob fogo e a revolução a ganhar força, foi persuadido a abandonar Lisboa.

No início da tarde de 5 de outubro, o rei seguiu para Mafra, onde se encontravam as rainhas D. Amélia e D. Maria Pia. Passou ali a sua última noite em território português, no Palácio Nacional de Mafra. No dia seguinte, ao ver a bandeira da República hasteada na vila, percebeu que a resistência era inútil.

Decidiu então partir para a Ericeira, onde o iate real “Amélia” aguardava ao largo. A viagem foi feita por estrada, com escolta reduzida. Chegados à vila, desceram discretamente à Praia dos Pescadores, onde os pescadores locais cederam dois barcos para os levar até ao iate.

Um barco chamava-se Navegador, onde foi o rei. O outro barco, onde foi a rainha, ironicamente, chamava-se Bonfim, em honra ao Senhor do Bonfim.

O Senhor do Bonfim é uma invocação de Jesus Cristo crucificado, muito venerada em Portugal, sobretudo em comunidades costeiras. É tradicionalmente associado à proteção contra naufrágios, tempestades e perigos do mar, sendo comum os pescadores batizarem os seus barcos com esse nome, em sinal de fé e proteção divina.

A devoção ganhou ainda mais projeção no Brasil, especialmente em Salvador da Bahia, onde a Igreja do Bonfim se tornou um dos maiores centros de peregrinação do país.

Na Ericeira e noutras vilas piscatórias portuguesas, o nome “Bonfim” é frequentemente dado a embarcações, capelas ou imagens, com o desejo de bons ventos, segurança e regresso a casa em paz.

Eram cerca de 16 horas quando a família real deixou Portugal. Pouco depois, a bordo do iate, seguiram para Gibraltar — e, daí, para o exílio em Inglaterra.

O Exílio Real: Inglaterra e a Despedida Silenciosa

Recebidos com discrição e respeito pela família real britânica, D. Manuel II e D. Amélia instalaram-se em Richmond, nos arredores de Londres. Mais tarde, mudaram-se para a casa senhorial de Fulwell Park, em Twickenham, onde o ex-rei viveu até à morte.

Em 1913, D. Manuel casou-se com Augusta Vitória de Hohenzollern, mas o casal não teve filhos. O ex-rei nunca renunciou oficialmente ao trono, embora também nunca tenha tentado restaurá-lo pela força. Acompanhou de longe os acontecimentos em Portugal, incluindo as tentativas frustradas de restauração monárquica.

A 2 de Julho de 1932, com apenas 42 anos, morreu o último rei de Portugal - D. Manuel II - subitamente, vítima de edema da glote. Faleceu na sua casa de exílio em Twickenham, nos arredores de Londres, Inglaterra. Curiosamente, no mesmo bairro onde nasceu a sua mãe Dona Amélia de Orleães

O corpo de D. Manuel II foi transladado para Portugal e sepultado no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.

No mesmo mês da queda da monarquia, exatamente 11 anos depois, em Outubro, em 1951 Dona Amélia de Orleães - a última rainha de Portugal - faleceu, em França onde estava exilada, e as suas últimas palavras “Sofro tanto! Deus está comigo. Adeus. Levem-me para Portugal!”. O seu corpo foi transladado para a Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora, junto dos seus filhos e do marido, rei D. Carlos.

O Fim de uma Era

A fuga pela Ericeira simboliza o encerramento de um dos capítulos mais longos da história portuguesa: quase 800 anos de monarquia. A 5 de outubro de 1910 começou um novo ciclo na história de Portugal e foi aqui, na

Praia dos Pescadores da Ericeira, que, simbolicamente, a monarquia terminou e começou a República.

Hoje, quem caminha pela Praia dos Pescadores talvez não imagine que foi ali, em silêncio e sob o olhar discreto de uma vila, usando uma caixa de peixe de degrau para subir ao bote,  que o último rei de Portugal partiu para o exílio. O Bom-Fim, como o próprio nome anunciava, foi o barco que marcou esse adeus.

1910: O Fim da Monarquia Acontece na Praia dos Pescadores, Ericeira
Fuga da Família Real : embarque na praia da Ericeira na tarde de 5 de Outubro de 1910.
]]>
<![CDATA[As ribas não esquecem]]>No passado adormeceu,
A promessa do porvir.

Hipotecaram-se as saudades;
Talvez um dia retornem.

Os mares guardam memórias
Dos que em suas águas jazem.

E as ribas, em silêncio, choram
Por aqueles que nunca voltaram.

]]>
https://afuga.pt/as-ribas-nao-esquecem/67805dd622138d000148700cFri, 10 Jan 2025 00:14:19 GMT

No passado adormeceu,
A promessa do porvir.

Hipotecaram-se as saudades;
Talvez um dia retornem.

Os mares guardam memórias
Dos que em suas águas jazem.

E as ribas, em silêncio, choram
Por aqueles que nunca voltaram.

]]>
<![CDATA[John Newton]]>(English below)

John Newton (1725–1807)  Nasceu em Londres, perdeu a mãe aos seis anos e começou a trabalhar no mar ainda jovem.  Em 1745 trabalhou no primeiro navio negreiro,. Devido à sua indisciplina foi, na África Ocidental, entregue

]]>
https://afuga.pt/john-newton-escravo-esclavagista-abolicionista/67409fe61233ce0001af42a0Fri, 22 Nov 2024 15:20:24 GMT

(English below)

John Newton (1725–1807)  Nasceu em Londres, perdeu a mãe aos seis anos e começou a trabalhar no mar ainda jovem.  Em 1745 trabalhou no primeiro navio negreiro,. Devido à sua indisciplina foi, na África Ocidental, entregue a um comerciante local de escravos como castigo. Durante dois anos,  foi escravizado e submetido a maus-tratos. 

Em 1748 foi resgatado por um navio britânico enviado pelo seu pai. Na viagem, durante uma violenta tempestade, Newton clamou a Deus por misericórdia e a tempestade extingui-se, marcando o início da sua jornada espiritual.

Dois anos depois, assumiu o comando do navio Duke of Argyle tornando-se comerciante de escravos da África para as Américas. 

Quatro anos depois, após uma grave crise de saúde, Newton decidiu deixar o comércio de escravos. Trabalhou como oficial alfandegário. Aprofundou a sua fé cristã e em 1764 tornou-se pastor anglicano. Em 1772 escreveu “Amazing Grace”. 

Passados 34 anos, de se retirar do tráfico de escravos, Newton quebrou o silêncio e em 1788 publicou o panfleto Thoughts Upon the African Slave Trade, no qual denunciava o tráfico de escravos e confessava o seu arrependimento.

Eu não posso olhar para trás sem tremor… A minha culpa pareceu começar antes que eu soubesse o que estava fazendo.

Nos anos finais da sua vida tornou-se um abolicionista fervoroso. Aliou esforços com William Wilberforce, líder do movimento pela abolição da escravatura no Império Britânico.

Newton viveu para ver o seu objectivo cumprido. No dia 1 de Maio de 1807, o Parlamento Britânico aboliu o comércio de escravos.  Newton morreu a 21 de Dezembro do mesmo ano.  Amazing Gracetornou-se um dos hinos mais icónicos do mundo ecoando a jornada de Newton: o poder transformador da graça divina que resgatou “um pecador perdido”.

Não sou o que devo ser, não sou o que quero ser, não sou o que espero ser em outro mundo; mas, ainda assim, não sou o que costumava ser. Pela graça de Deus, sou o que sou.

--

Slave, Slave Trader, and Abolitionist

Born in London, he lost his mother at the age of six and started working at sea while still very young. In 1745, he worked on his first slave ship. Due to his indiscipline, he was handed over as punishment to a local slave trader in West Africa, where he was enslaved and subjected to mistreatment for two years.

In 1748, he was rescued by a British ship sent by his father. During the voyage, in the midst of a violent storm, Newton cried out to God for mercy, and the storm subsided, marking the beginning of his spiritual journey.

Two years later, he took command of the ship Duke of Argyle, becoming a slave trader, transporting enslaved people from Africa to the Americas.

Four years later, after a severe health crisis, Newton decided to leave the slave trade. He worked as a customs officer and deepened his Christian faith. In 1764, he became an Anglican pastor. In 1772, he wrote Amazing Grace.

Thirty-four years after leaving the slave trade, Newton broke his silence. In 1788, he published the pamphlet Thoughts Upon the African Slave Trade, in which he condemned the trade and confessed his regret.

“I cannot look back without trembling… My guilt seemed to commence before I was aware of it.”

In the final years of his life, he became a fervent abolitionist, joining forces with William Wilberforce, the leader of the movement for the abolition of slavery in the British Empire.

Newton lived to see his goal achieved. On 1 May 1807, the British Parliament abolished the slave trade. Newton died on 21 December of the same year. Amazing Grace became one of the most iconic hymns in the world, echoing Newton’s journey: the transformative power of divine grace that saved “a wretch like me.”

“I am not what I ought to be, I am not what I want to be, I am not what I hope to be in another world; but still, I am not what I used to be. By the grace of God, I am what I am.”

]]>
<![CDATA[Agradece]]>Seja em que situação estiveres na vida
estejas em abundância,
ou a lutar pela sobrevivência ,
na doença,
ou na vitalidade,
nada disso importa,
pois cada um de nós está a viver,
exatamente o que precisa de viver

Se

]]>
https://afuga.pt/agradece/665cf9892e20970001226876Sun, 02 Jun 2024 23:07:39 GMT

Seja em que situação estiveres na vida
estejas em abundância,
ou a lutar pela sobrevivência ,
na doença,
ou na vitalidade,
nada disso importa,
pois cada um de nós está a viver,
exatamente o que precisa de viver

Se sentes que há alguma coisa que podes fazer
então força, mete mãos à obra
se a relva te chama, deita-te com ela
se os teus obstáculos não podes contornar
talvez hoje ainda não tenhas a força para os enfrentares
então, aceita-os na tua vida

Foi-te dado a maior dádiva
poderias ter nascido minhoca, cão, mosca, pulga ou carraça
mas o universo fez-te nascer ser humano

De tantos milhões de espécies diferentes 
tiveste a sorte de ser abençoado com a espécie visível
que tem maior consciência 
não foi por acaso, não foi uma coincidência
foi um milagre

Tens a maior benção que é a vida
Agradece por isso
Agradece todos os dias por isso
Agradece aos teus pais que te deram a vida
Agradece às pessoas que estão presentes na tua vida
Agradece-lhes todos os dias antes de começares o dia
Agradece todos os dias por teres o dom da vida 

Este mundo é fértil,
há muita abundância,
há amor em todas as pessoas,
há muito amor em ti,
todos somos fruto do amor,
Todos,
mesmo que tenho sido apenas numa noite, 
foi uma noite de amor

Nesta vida há uma escolha
viver em medo ou em amor
todos somos feitos de amor 
e todos queremos o amor 
a ignorância faz-nos escolher o medo

Escolhe, escolhe o que quiseres
fá-lo em consciência 
escolhe se queres viver em medo ou em amor

O medo atrai mais medo
Amor atrai mais amor

Não há uma escolha melhor que a outra
experimenta, 
se já viveste em medo
experimenta viver em amor

Agradece, 
há quem não tenha um teto, e é feliz
há quem tenha estado em campos de concentração, e depois foi feliz
há mães que perderam filhos, e são felizes
há pessoas que materialmente nada têm, e são felizes
há pessoas que sofreram vários cancros, e também são felizes
há pessoas que perderam toda a família, e são felizes

A felicidade não acontece para nós,
não é um caminho, nem um resultado
a vida é um milagre
a felicidade existe dentro de nós

Escolho agradecer a vida,
escolho ser feliz, 
escolho apreciar a beleza deste mundo,
e enfrentar os problemas com amor

Já temos o dom mais importante, a vida
tudo o resto são desafios
os desafios são a única forma de conhecermos  
quem realmente somos.

--

]]>
<![CDATA[A fechadura]]>https://afuga.pt/a-fechadura/664b37f082618b000171cab9Mon, 20 May 2024 11:47:53 GMT

Depois de um almoço de família de cozido à portuguesa onde não faltaram as carnes, as couves, o arroz, o feijão, os enchidos, as batatas e as cenouras cozidas. E depois ainda vieram em formosa abundância, os doces. A bela empanturrada familiar que para sair da mesa tem de se chamar a grua ou rebolar para desencaixar da mesa. Salva-nos o café escuro e forte para não se falecer à mesa. Mais parecia uma maratona semelhante à consoada natalícia, mas prometeu minha mãe que este era o último cozido da temporada de inverno. Isto porque claro, ninguém se atreve a esta missão em dias de verão. E já que é o último então atesta-me um pouco mais de farinheira, e vamos lá em mais uma garfada que ainda não desmaiei. Semelhante ao brunch este é um lunchner, um lunch que também vale por dinner.  

E exatamente neste ponto, podia dar-se o dia por feito. Tão simples como rodar para o sofá, onde a sesta seria mais do que certa. Adormecer e desligar a máquina para que o corpo dedicasse todos os seus recursos em dar conta da empreitada alimentícia. O corpo agradecia e o fígado mais ainda. Como aquele reiniciar do computador tão necessário por vezes. Seria  bom, mas quando se tem um catraio na tenra idade, tais desejos não são mais do que pura fantasia, como dizia o outro, “eu também queria muita coisa”. Entre o querer e o ter está a ilusão do ignorante que todos somos, de querermos o que não temos porque não sabemos que já temos tudo o que precisamos.

Feito o almoço era tempo de ir para casa. Lá fui eu mais o pequeno na viatura. Eu atestado como um pote e a criança atestada de sono. À primeira curva já estava a dormir, pelo retrovisor entrava-me a inveja de também me querer apagar. Onde estão os tão prometidos carros autónomos para eu bater uma bela sorna enquanto a viatura nos leva a casa? Ele dormia ferrado, e eu conduzia em esforço. Pelo caminho imaginava a bela sesta que quando a casa chegasse faria no sofá. Claro que na chegada, o pequeno acorda com a força de um peixe que luta pela vida fora de água e lá foi por água a tão desejada sesta no sofá da sala. Arranca que são três da tarde e o dia ainda é uma criança. 

Parecíamos o reflexo um do outro: ele fresco recém-acordado e eu velho quase-dormido. Então lembrei-me, vamos aparar as sebes do jardim. Ele adorou o plano. Fui buscar o escadote, e comecei a tarefa. Ele prontamente se ofereceu para apanhar os ramos cortados. Não podia ter corrido melhor, aparei as sebes e ele colocou-as no caixote e juntos deitamos toda aquela matéria orgânica para os, sempre famintos, bichos que vivem no contentor da compostagem. Demos um aperto de mão, foi um verdadeiro trabalho de equipa. Não podia estar mais feliz. De seguida levei o escadote para guardar na arrecadação. Quando vou a entrar o escadote, grande mas leviano por ser feito de alumínio, bate suavemente na porta da arrecadação. Nada preocupante, mas houve um barulho metálico que se seguiu de outros dois mais baixinhos. Quando olhei não podia acreditar, a ponta do escadote bateu exatamente na chave da arrecadação que estava na fechadura. O metal comido pela ferrugem e o universo fizeram o resto, a chave partiu-se e uma parte ficou dentro da fechadura. Qual é a probabilidade de isto acontecer? Esta foi a sorte que me saiu no final do domingo. 

Não podia fechar a porta da arrecadação porque senão não a podia abrir. Tinha outra chave mas a fechadura estava ocupada com a velha chave moribunda e partida. Tinha eu de mudar de fechadura?  O dia prosseguiu, dar banho à criança, preparar o jantar e enquanto fazia estas tarefas sentia uma voz distante da bricolage a chamar por mim. Soava a maldição, ou a prova de superação. Enquanto adormecia a criança, eu matutava, amanhã segunda-feira tenho de tratar disso. Para muitos seguramente seria uma operação banal para mim soava a tormento e pior é que não me podia servir da tão habitual procrastinação para adiar tal missão. Enquanto o tempo passava a porta da arrecadação continuava escancarada e aberta para toda a espécie de bicharada.

No dia seguinte, segunda-feira,  fiz pequeno-almoço, marmita para a criança levar para a escola, levei-o à escola e sem mais demora fiz-me à estrada e enfrentei a loja de bricolage. Muitas ferramentas, peças e peçinhas, para mim tudo quinquilharia . Lá deambulei de corredor em corredor, pedi ajuda aqui e ali, até que me disseram. “Ora, o que as pessoas fazem normalmente é trazer a fechadura antiga para vermos qual é igual ou a mais parecida”. A melhor notícia que um procrastinado poderia ouvir. Senti um alívio pela tarefa ficar relativamente adiada. O objectivo que me tinha sido entregue parecia relativamente simples, retirar a velha fechadura que continha a chave encravada. Sinto-me capaz para a tarefa.

Antes de proceder à missão, tentei transformar as minhas desventuras em alegrias para outros: contei o sucedido no grupo de whatsapp familiar, alguém certamente se iria rir com a minha desgraça. E riram-se mas, o meu pai deu-me um bom conselho: retirar o bocado de chave que ficou dentro da velha fechadura e assim problema resolvido. O conselho era bom porque resolvia-me o maior problema de todos, não teria de lidar com a substituição da fechadura. Que, apesar de nunca ter feito, não parecia tarefa nada fácil, menos ainda para um fugitivo de bricolage como eu.

Comecei a tarefa, claro que sou um precário no que se refere ao arsenal de ferramentas que possuo: um berbequim; um jogo de chaves de fendas; spray lubrificante; martelo e uma extensão elétrica. Ou seja, como costuma acontecer neste tipo de situações, nenhuma ferramenta útil para o empreendimento que se apresenta.

Sem ferramenta em que pegar, rendi-me ao que o corpo me deu, um par de olhos: observei a fechadura e os restos mortais da chave nela contidos e observei como seguramente um boi admira um palácio, sem um pingo de conhecimento mas também sem uma gota de preocupação. E alguém, até hoje não sei quem, me sussurra ao ouvido: e porque não usas palitos para retirar a chave?  Não pensei nem questionei, era a melhor pista que tinha. Tentei e fui tentando e lá avançou um pouco, e mais outro pouco, depois regredia, voltava a avançar, mas a coisa não se resolvia, e o bocado de chave dali não passava. Apenas um milímetro daquele pedaço de metal assomava-se para fora, a testa e as pálpebras se viam, mas o tronco e resto do corpo não havia forma de sair. Quando mais força fazia mais a chave no buraco se escondia. Tentei de vários ângulos, parti vários palitos mas a chave nem por nada queria sair. 

E outra vez volto a escutar outro sussurro: usa o óleo lubrificante para facilitar a vida da chave falecida. Que brilhante ideia! Apliquei um pouco do dito spray. Fiz mais umas tentativas, parecia que ia ser desta mas ainda faltava um bocado. Até que a chave desliza e além das pálpebras vejo-lhe todas as suas partes, todas as suas curvas, as suas entranhas, as diferentes concavidades que tinha, e a modo de salto como numa tentativa de voo, como um pequeno melro que deixa o seu ninho, a decapitada chave deixa a fechadura e lança-se num voo para rapidamente cair a tombos pelo chão. Nunca tinha sentido tanta alegria de ver um pedaço de metal a voar. 

]]>
<![CDATA[O túnel]]>

Ao ouvido me segredaste
tantas histórias para contar
fiquei no marasmo
das vertigens de falhar

Um lago de não fazer
campos e campos
de nada
sempre a perder

A dor entra
fisura e perfura
um túnel
uma longa noite escura

Não h&

]]>
https://afuga.pt/o-tunel/663f66f99940f00001785e82Sat, 11 May 2024 12:45:11 GMT

Ao ouvido me segredaste
tantas histórias para contar
fiquei no marasmo
das vertigens de falhar

Um lago de não fazer
campos e campos
de nada
sempre a perder

A dor entra
fisura e perfura
um túnel
uma longa noite escura

Não há lua
Nem gotas de esperança
há um caminho
vais tu 
e a tua criança

Só encontrarás a saída
a verdadeira bonança
quando dos teus medos
fizeres amigos

]]>
<![CDATA[A Ericeira e os refugiados da Segunda Guerra Mundial]]>

Durante a Segunda Guerra Mundial chegaram a Portugal 43 mil refugiados. Instalaram-se nas grandes cidades do país, cerca de 14 mil em Lisboa, mas posteriormente foram enviados para meios mais pequenos como as Caldas da Rainha, Figueira da Foz e a Ericeira. O regime de Salazar temia pela

]]>
https://afuga.pt/a-ericeira-e-os-refugiados-da-segunda-guerra-mundial-2/65d4b3f407e5ef000159ec2eTue, 20 Feb 2024 14:25:48 GMT

Durante a Segunda Guerra Mundial chegaram a Portugal 43 mil refugiados. Instalaram-se nas grandes cidades do país, cerca de 14 mil em Lisboa, mas posteriormente foram enviados para meios mais pequenos como as Caldas da Rainha, Figueira da Foz e a Ericeira. O regime de Salazar temia pela agitação política e económica, mas este fenómeno teve resultados inesperados: revelou-se economicamente um sucesso para alguns e socialmente um fenómeno de modernização.

A grande afluência de refugiados a Portugal deveu-se por um lado à sua posição de neutralidade na guerra e por ser a porta com mais fácil acesso à tão desejada América do Sul e aos Estados Unidos da América.

muitos refugiados acabaram por ficar em Portugal

O regime ditatorial salazarista pretendia que Portugal fosse apenas um país de passagem para os refugiados, no entanto, devido às limitações legais de vistos impostos pela imigração dos Estados Unidos, muitos refugiados acabaram por ficar em Portugal. Os que ficaram, como Fritz Teppich, foram presos por terem vistos expirados. Mais tarde a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) libertou os refugiados, enviando-os para meios pequenos como a Ericeira, com apertada vigilância e residência fixa: podiam afastar-se apenas alguns quilómetros, não podiam ter qualquer filiação política e estavam sujeitos à absoluta proibição de trabalho.

 Ericeira nos anos 40, antes da chegada dos refugiados

Em plena ditadura, Portugal vivia uma forte censura às liberdades de expressão, uma taxa de analfabetismo altíssima, um grande fervor religioso, costumes conservadores e isolamento de uma Europa em modernização.

Os refugiados trouxeram hábitos e costumes de uma Europa mais moderna. Na Ericeira o primeiro contacto, na Praça da República – conhecido também por ‘Jogo da Bola’ -, foi de choque mas de seguida suscitaram curiosidade e depois veio a emancipação.

A Ericeira e os refugiados da Segunda Guerra Mundial
in “Ericeira, 50 anos depois… – Os refugiados estrangeiros da Segunda Guerra Mundial”, de José dos Santos Caré Júnior

Em 1940, a Ericeira tinha 3100 habitantes que (sobre)viviam da pesca artesanal, com pequenas embarcações movidas a remos e à vela, e do turismo balnear durante os três meses de Verão. Já por aqueles tempos os alugueres de curta duração durante os meses da época balnear constituíam uma das principais fontes de rendimento da população, inclusive dos pescadores, sendo que muitos deles alugavam as suas casas aos “senhoritos”.

Antes do Estoril ter a fama da Costa do Sol, as praias da Ericeira eram o destino para muitas famílias da classe alta. Daí o nome “senhoritos” atribuído aos veraneantes  que durante os três meses de verão animaram socialmente e economicamente a vila.

A pesca era abundante, mas os preços de venda praticados na improvisada lota da Praia do Peixe, ou Ribeira (hoje chamada Praia dos Pescadores) eram baixos. Durante os meses de Inverno, ainda sem porto de pesca, as condições do mar não permitiam muitas saídas para a faina. Desta forma os pescadores viviam uma vida de sacrifício durante todo o ano.

 Quem eram os refugiados

Chegar a Portugal era extremamente difícil, exigindo um de dois recursos, idealmente os dois: dinheiro ou fortes apoios políticos ou religiosos.
Os mais abastados vinham de avião, navio ou comboio. Os que vinham de comboio chegavam ao Rossio, podendo atravessar uma passagem secreta para o Hotel Avenida Palace para entrarem em Lisboa sem qualquer controlo policial. Para seguirem para os Estados Unidos, os mais abastados optavam pelos hidroaviões Clipper.

Os hidroaviões Yankee Clipper eram os maiores aviões comerciais existentes. Tinham dois andares e podiam transportar até 50 passageiros. Amaravam no Rio Tejo, na pista do Cabo Ruivo, e voavam para Nova Iorque. Velocidade de 300 quilómetros hora a uma altitude de 2500 metros. A viagem durava apenas 27 horas, bem mais rápido do que a alternativa marítima: um navio que tardava entre dez a doze dias.

A Ericeira e os refugiados da Segunda Guerra Mundial
Yankee Clipper na pista de Cabo Ruivo, Lisboa

Este luxuoso serviço era comercializado pela companhia aérea Pan América. O preço de um bilhete, nos dias de hoje, seria o equivalente a 8 mil euros. Uma exorbitância que se reflectia no interior luxuoso destes aviões: serviços de mesa de porcelana, copos de cristal, caviar, champanhe, sala de estar, sala de jantar, bar e camas desdobráveis para os tripulantes. Apesar do luxo, muitas eram as histórias de clientes que enjoavam toda a viagem e não desfrutavam da sumptuosa comida servida a bordo.

Antes do início da guerra os hotéis de Lisboa apresentavam baixas taxas de ocupação. Da noite para o dia, a capital portuguesa tornou-se um famoso destino e os hotéis transbordavam de refugiados. “não era fácil encontrar quarto num hotel de Lisboa entre 1940 e 1942.“ *ª. O café Chave de Ouro na Praça do Rossio estava constantemente cheio, os engraxadores sempre ocupados. Havia estrangeiros da união dos aliados e outros do partido nazi, todos conviviam na mesma cidade. À noite, Lisboa era conhecida como a cidade da luz, por ser uma das poucas cidades da Europa que mantinha a iluminação pública ligada. A maioria das capitais europeias permaneciam na penumbra para evitar os bombardeios. Milionários e famosos ocupavam os hotéis luxuosos da capital. Calouste Gulbenkian foi um deles, hospedado permanentemente no hotel Aviz.

o Judeu Fritz Teppich escreveu o livro «Um refugiado na Ericeira»

Para chegar a Portugal era necessário obter um passaporte, um visto de saída, conseguir transporte, atravessar uma Espanha (ainda no rescaldo de uma violenta guerra civil) altamente vigiada pela polícia e, por fim, cruzar a fronteira de Portugal. O número de refugiados que logravam o destino perfazia um número bastante reduzido comparado com os que desejavam fazê-lo.

Fritz Teppich, judeu refugiado, iniciou a sua fuga da Bélgica quando este país foi invadido pelos exércitos alemães. Com muito esforço e depois de bastantes quilómetros, conseguiu chegar a Lisboa. Mais tarde foi preso por ter o seu visto expirado. Na prisão conheceu o dirigente do Partido Comunista Português, Joaquim Pires Jorge, preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). Fritz Teppich foi enviado com residência fixa para a Ericeira, onde permaneceu vários anos, fazendo amigos e onde se apaixonou. Escreveu o livro “Um refugiado na Ericeira”, onde relatou a sua experiência.

A Ericeira e os refugiados da Segunda Guerra Mundial
Livro, Um refugiado na ericeira de Fritz Teppich

Para permanecer em Portugal, os refugiados sem fortunas contavam com o apoio de organizações ou de instituições religiosas. Os apoios monetários que recebiam permitia-lhes ter uma vida economicamente desafogada, uma vez que auferiram rendimentos bastante superiores ao rendimento médio dos portugueses. Tal como conta Fritz Teppich no seu livro, “Eu continuava a receber regularmente da Comunidade Israelita os 750 escudos mensais. Sempre seria mais do que ganhava um guarda da prisão e o dobro do salário de um operário”. Com estes apoios os refugiados podiam consumir nos cafés e bares da vila e alojarem-se em casas particulares ou pensões, como foi o caso do Pensão Morais na Ericeira, que recebeu muitos refugiados.

A Ericeira e os refugiados da Segunda Guerra Mundial
in “Ericeira, 50 anos depois… – Os refugiados estrangeiros da Segunda Guerra Mundial”, de José dos Santos Caré Júnior

Refugiados na Ericeira

Chegaram de autocarro e desceram na Praça da República, também conhecida até hoje por ‘Jogo da Bola’. Gentes de muitas nacionalidades, profissões e classes sociais diferentes. Uma mistura dos vários cantos de uma Europa desconhecida em Portugal. Muitos hospedaram-se na Pensão Morais outros em casas particulares. Passavam os dias no Café Salvador, ou deliciando-se com a famosa pastelaria da Casa das Cavacas.

Com a permanência dos refugiados na Ericeira, houve comportamentos a que jamais se tinha assistido antes. Por exemplo, um jovem casal a beijar-se em público causava surpresa e estupefação. Também a convivência pré-matrimonial de casais jovens deixava muita gente confusa e chocada.

A Ericeira e os refugiados da Segunda Guerra Mundial
in “Ericeira, 50 anos depois… – Os refugiados estrangeiros da Segunda Guerra Mundial”, de José dos Santos Caré Júnior

Causaram choque mas nunca foram motivo de conflitos, antes pelo contrário: constituíram uma forma de libertação e modernizações de comportamentos.

Foi nos bailes dos cafés e nas sociedades de recreio local que refugiados começaram a dançar com outros refugiadas e com mulheres locais. A música e a dança reduziram a distância cultural e social que havia entre todos. Era aqui que as mulheres de fora iam, sem qualquer cerimónia, buscar tanto homens estrangeiros como nacionais.

nunca notei na vila inveja de nós, nem inimizade para com os estrangeiros

Durante o dia, eram muitos os que faziam caminhadas e eram abordados pelos locais que lhes ofereciam boleia com o intuito de ajudar, achavam que estariam perdidos ou apeados. Só uns anos mais tarde é que as caminhadas começaram a ser também um hábito local.

Por estas alturas, em 1942, nenhuma rapariga ou mulher frequentava nenhum dos três cafés da Ericeira (Bijou-Arcada, Café Salvador e Casa das Cavacas). No entanto, assim que as refugiadas começaram a frequentar estes espaços as mulheres locais aderiram de imediato. O mesmo aconteceu com o penteado de rabo de cavalo – bastante comum pela sua praticabilidade, foi também rapidamente adoptado pelas mulheres da terra.

A Ericeira e os refugiados da Segunda Guerra Mundial
in “Ericeira, 50 anos depois… – Os refugiados estrangeiros da Segunda Guerra Mundial”, de José dos Santos Caré Júnior

Fritz Teppich testemunhou que “Não conhecia ninguém entre esta boa gente cuja família inteira chegasse, sequer de longe, à nossa mensalidade. E ainda contávamos com médico e medicamentos grátis, e também podíamos uma vez por outra solicitar dinheiro para despesas de vestuário”. Apesar destes contrastes e de todas as privações que grande parte das famílias da Ericeira passavam, o autor acrescenta, “(…) nunca notei na vila inveja de nós, nem inimizade para com os estrangeiros”.

Esta vila abraçada pelo Atlântico, acariciada pelas nortadas e por esse azul do mar que se estende de Norte a Sul foi durante décadas (ou mesmo séculos…) uma terra de pouca gente, com poucos recursos e de hábitos conservadores. As suas gentes receberam de braços abertos outras gentes de uma Europa muito distante e com outros hábitos, idiomas e costumes. Ao início estranharam e depois fizeram amigos e integraram os novos hábitos.

esta convivência contribuiu para nos libertarmos do obscurantismo que se fazia sentir no nosso país

Os refugiados trouxeram uma lufada de ar fresco e animaram economicamente os negócios e socialmente as gentes desta terra.

“Esta mesma convivência com outras gentes, outros povos e outras culturas contribuiu, de certo modo, para nos libertarmos do obscurantismo cultural e social que se fazia sentir no nosso país”. Júnior J. 1995 Ericeira 50 anos depois …

*ª Neil L. (2012) Lisboa

Repost: Este texto foi originalmente publicado na revista Azul https://www.ericeiramag.pt/a-ericeira-e-os-refugiados-da-segunda-guerra-mundial/

]]>
<![CDATA[A morte e o sucesso]]>Esta vida que estou agora a viver é apenas um momento fugaz da minha existência. Outras vidas é vivido, vidas passadas e outras vidas irei viver, e esta é mais uma. Não a desvaloriza, nem a torna especial, há um enorme peso que desaparece. O

]]>
https://afuga.pt/a-morte-e-o-sucesso/65a79fbfe9a3b60001f4ca9dWed, 17 Jan 2024 09:47:31 GMT

Esta vida que estou agora a viver é apenas um momento fugaz da minha existência. Outras vidas é vivido, vidas passadas e outras vidas irei viver, e esta é mais uma. Não a desvaloriza, nem a torna especial, há um enorme peso que desaparece. O fim não é realmente o fim, não havendo um fim desaparece a necessidade de querer fazer tudo nesta vida. Reduz essa ansiedade de ter que fazer e resolver tudo nesta curta vida de uma vida eterna. Não estou no princípio e certamente não estou no fim, algures pelo meio imagino eu, é mais um momento da minha imensa existência. A morte é apenas o fim deste veículo que é o corpo.

Logo o medo pela morte perde muita força porque na realidade não morrerei, a morte da vida não existe. Não estarei fisicamente presente para as pessoas que me conhecem aqui e agora, mas a minha vida continuará algures noutro lugar. Quanto mais temo a morte, menos vivo a vida. Quanto estou no futuro não vivo o presente. 

O sucesso é exatamente igual, quanto mais penso nele menos desfruto o processo. Seja na escrita, no amor, na parentalidade ou na amizade. Se os meus pensamentos estão no futuro nunca aprecio a única coisa que realmente existe, o presente. O processo é esse que faço cada dia, é o presente. O sucesso esse, tal como o futuro, não depende de mim e pode nunca chegar. 

De que me serve focar-me no sucesso quando de mim nada depende? De que me serve pensar no futuro quando o que se vive, a única coisa que realmente existe, é o presente?

]]>
<![CDATA[É a vida]]>Limpa,
as aflições
que te comem os botões

Queima,
os medos
que te têm como seu brinquedo

Aceita,
as experiências
são todas elas
a tua melhor colheita

Expira, inspira
é o ar da vida,
é a flama,
que todos

]]>
https://afuga.pt/e-a-vida/6560c1222cbf5a00015f055cFri, 24 Nov 2023 15:35:33 GMT

Limpa,
as aflições
que te comem os botões

Queima,
os medos
que te têm como seu brinquedo

Aceita,
as experiências
são todas elas
a tua melhor colheita

Expira, inspira
é o ar da vida,
é a flama,
que todos os dias te chama

Agarra,
agarra-te com força
é a loucura da vida
a querer ser vivida

Está aí,
sempre esteve,
à tua espera
agradece ao que chamas inimigos
abraço os teus mais queridos

Que te amem, que te beijem
que te comam,
o primeiro passo para amar,
é deixar o amor entrar

Receber,
Receber,
Abre o peito
que te entre pelo coração
vulnerabilidade com fartura
isso sim é bravura

Anda,
vem,
abre os olhos
sobe-te ao comboio
é a vida a chamar-te,
sente a batida,
deixa surpreender-te
por esta viagem
que chamamos vida

--

]]>
<![CDATA[E assim começou]]>Começou com um par de palavras
De seguida, umas ideias simpáticas
Rapidamente fomos a umas mais arriscadas
Gostaste, e de seguida
me desafiaste

Palavras levianas
são baús de tesouros vazios
quando sentidas,
acendem-me os pavios

Escutar a tua história
soa

]]>
https://afuga.pt/e-assim-comecou/655cb360fc4ac90001b087f6Tue, 21 Nov 2023 13:43:31 GMT

Começou com um par de palavras
De seguida, umas ideias simpáticas
Rapidamente fomos a umas mais arriscadas
Gostaste, e de seguida
me desafiaste

Palavras levianas
são baús de tesouros vazios
quando sentidas,
acendem-me os pavios

Escutar a tua história
soa a início de melodia
uma inspiração,
a ser vivida.

Onde caminhas com essa graça
onde me levas com essa vontade
volta pele macia,
a esta nossa cantiga ainda lhe falta
duas notas à melodia.

Encontramos quando não buscamos,
e assim de procurar deixei,
e um dia,
a ti,
te encontrei.

Começamos com um par de copos,
depois vieram os olhares
esse fogo já ardia
a vontade
já me vencia

No final,
tal como secretamente sempre desejámos,
havia apenas um lugar
onde apagar esta chama
e claro está,
foi na tua cama.

Rendo-me ao fervor
isto também é amor
não mataria por um beijo
mas por favor
mata-me o desejo.

]]>
<![CDATA[E um dia]]>

E um dia 
assim de mansinho
com o mar calmo
e perfumes de maresia 

Nas cores amareladas 
do início da madrugada
vi um barco pela praia zarpar
partiu, 
para nunca mais voltar

E tu na praia ficaste
atolado com os pés na

]]>
https://afuga.pt/e-um-dia/65537a34909f780001ec8ee9Tue, 14 Nov 2023 13:49:22 GMT

E um dia 
assim de mansinho
com o mar calmo
e perfumes de maresia 

Nas cores amareladas 
do início da madrugada
vi um barco pela praia zarpar
partiu, 
para nunca mais voltar

E tu na praia ficaste
atolado com os pés na areia
de frente para a rebentação
com os olhos e as ideias 
presas a essa embarcação

O imenso mar,
de tantas formas e cores
infinitas possibilidades
e tu ficaste
preso às saudades

O mar nunca está parado
Para ele, não existe futuro ou passado
Mas tu, na praia ficaste

O mar, 
nunca voltará a ser o mesmo
nunca foi
e esse barco 
já tu sabes
já foi

E na praia ficaste
até não haver nada
definhaste
nada mais para dar, 
entregaste
Até nada mais para deixar
Foram dias depois 
quando acordaste

Peguei nas pernas
fui ao cemitério
as ideias lá deixei
fiz-me à estrada
e nu caminhei

Só se pode renascer 
depois de se morrer

]]>